Iracema Raming Vianna Meirelles: alguns detalhes de sua vida
e algumas histórias recolhidas junto aos irmãos
e primas do autor são relatadas
Este é o registro de nascimento de Tetê ( 11ª Circunscrição Livro 53 fl 113 termo 1412 nascimento)
No mapa abaixo pode-se ver como está hoje esta região onde vivia o jovem casal Domingos e Joanna quando nasceu Tetê.
No mapa abaixo do início do século XX (Onde está indicado o local aproximado da residência de Domingos José, quando recém casado, à Rua Dr Leal, 28) pode-se comparar as mudanças ocorridas em cem anos e como o bairro era residencial com transporte sobre trilhos variado para o centro da cidade. O bairro foi cortado pela Estrada de Ferro Central do Brasil (km 11,398). São limítrofes os bairros de Inhaúma, Abolição, Água
Santa, Cachambi, Encantado, Piedade, Pilares e Todos os Santos.
Formando hoje a região do Grande Méier sua origem remonta à época colonial, quando suas terras sediavam um engenho de açúcar que lhe deu o nome.
Desenvolveu-se, na segunda metade do século XIX, a partir da implantação da antiga Estrada de Ferro Pedro II (Estrada de Ferro Central do Brasil). Após a Proclamação da República do Brasil, foi erguido um galpão de pintura de carros que daria origem ao atual Museu do Trem.
Formando hoje a região do Grande Méier sua origem remonta à época colonial, quando suas terras sediavam um engenho de açúcar que lhe deu o nome.
Desenvolveu-se, na segunda metade do século XIX, a partir da implantação da antiga Estrada de Ferro Pedro II (Estrada de Ferro Central do Brasil). Após a Proclamação da República do Brasil, foi erguido um galpão de pintura de carros que daria origem ao atual Museu do Trem.
Iracema tinha uma beleza melíflua típica dos padrões de beleza da época e um ar sonhador pungente, tendo por isso sido aclamada entre outras jovens como uma das formosuras de seu tempo.
O aniversário de Iracema era sempre lembrado por seu pai, seja com presentes, seja com festinhas, seja com notícias na mídia. O carinho de Domingos José para com Tetê era profundo. Uma das publicações é exibida abaixo.
A documentação mantida por Iracema incluía também Notas fiscais de Hospitais como a do nascimento do autor deste trabalho na Casa de Saúde São José em parto assistido pelo Médico Dr Sertã. Nela pode-se observar como os custos médicos eram diferentes em relação ao início do século XXI.
A casa de Tetê foi ampliada em 1947 a partir de
um núcleo menor da família Rohr na Alexandre Ferreira 206 (antigo 82). O estilo normando foi uma exigência de
meus pais, pois este era um estilo em vog na época que foi utilizado pelos mesmos engenheiros do Piraquê. À direita o estado da obra contratada pelo pai do autor Antonio Ferreira da Silva Quintella em 1947. A letra é de seu irmão Antonio Domingos
Meirelles Quintella. Ao lado direito vê -se a casa em 1972 com a neta Lulu, Tetê
e a nora Mana à frente em foto tirada pelo irmão do autor Alfredo Domingos Meirelles Quintella.
Abaixo a
vê-se localização da casa hoje e anúncio do atual ocupante. O terceiro andar foi
ampliado segundo projeto de Antonio Ferreira da Silva Quintella.
Antigamente o terceiro andar abrigava um escritório com várias mesas e uma
biblioteca de mais de dez mil volumes. A frente era apenas um sótão onde havia
laboratórios diversos. Hoje a garage e o quintal foram anexados à casa atual e
o sótão transformado em extensão da antiga biblioteca.
Tiu- Kwan Shang, ou Tucansan é como era chamado
o velho cozinheiro chinês, enigmático, caladão, que fazia malabarismos na
cozinha da casa de meu avô ao preparar alguns pratos orientais. Sua maestria
era proverbial, não apenas nos pratos óbvios de origem chinesa, mas
surpreendentemente ele sabia com perfeição os mistérios das culinárias do Pará,
Maranhão, Pernambuco e Rio de Janeiro, além dos de algumas outras culturas asiáticas.
Minha mãe me falava muito dele e de sua tristeza profunda, perceptível somente
por pessoas observadoras, quando estava em
seus momentos de fragilidade.
Normalmente ele ostentava um sorriso, que agora sabemos,era amarelo, no
espírito e na letra. Para poucas pessoas
ele falava de si, ou de seus parentes ou da terra dos ancestrais, que ele
conhecia muito pouco.
Sua história é simplesmente
curiosa. Seu avô e seu pai vieram para o
Brasil com o avô do avô deste autor, juntamente com uma leva de trabalhadores livres de
plantio de chá no Maranhão. Viveu entre 1907 e 1915 na casa de Domingos
José e fez amizade com a suave Iracema,
a primogênita da casa, ainda criança.
Sua família havia vindo ao Brasil como agricultores para a experiência
de plantio de chá no Maranhão conduzida por Antonio José Meirelles 1º. Após a
morte deste bisavô doa utor deste trabalho, em circunstâncias suspeitas e uma longa disputa judicial
pela sua herança, a plantação de chá entrou em declínio e foram despedidos os
chineses e indianos. Mas alguns optaram por ficar no Brasil. Pelo que se sabe,
os parentes de Tucansan andaram por Ouro
Preto e pelo interior de São Paulo. Posteriormente com os fracassos destas iniciativas de produção de chá, empregou-se
como cozinheiro e após uma experiência de aprendizagem na cozinha de um hotel
do centro do Rio de Janeiro, procurou o avô do autor, Domingos José Meirelles, para trabalhar em sua casa.
Em janeiro de 1915, porém, pediu ao patrão que lhe
pagasse a viagem de volta à China pois queria rever seus familiares e ajudá-los no governo do
presidente Yuan Shi Kai, homem de uma esposa e dez
concubinas, de quem eram longinquamente
aparentados. Este general depôs o último imperador da China – Pu Yi. Mais tarde
intentou auto proclamar-se imperador, todavia ocupou primeiro o posto de
presidente entre março de 1912 e 22 de
dezembro de 1915 e só imperou por três
meses até março de 1916.
Dizia também que, desde sua
separação, descobriu que se
sentiu sempre muito só ao longo de sua vida pois, graças à sua timidez,
tinha construído mais muros do que
pontes. Agora julgava que era hora de construir pontes com seus parentes
distantes que estavam precisando dele.
Domingos José Meirelles comprou sua passagem de
navio para China e não se soube dele por muito tempo. Parentes dele enviaram
uma carta por volta de 1917 que continha um amuleto de ouro que, dizia a
tradição, garantia a saúde e proteção
contra os maus espíritos. Ele havia enviado este presente de aniversário de 12
anos para sua “amiguinha, a honorável Tetê” com todo o “carinho e respeito”. Na
carta contavam toda a turbulência que a China estava vivendo, a morte de Yuan
Shi Kai e a do próprio Tucansan. Mas diziam que ele morrera feliz, ajudando seus parentes e acalentando o
sonho de uma grande China.
Parece que havia deixado aqui no
Brasil várias viúvas de que se separara
e de uma delas teve duas filhas. Deixou na família Meirelles uma suave lembrança
de sua sabedoria oriental, particularmente para a superação e proteção contra a
ambição desmedida.
Certa vez tentei esclarecer qual o significado
daquele valioso amuleto, proveniente da China, e Tetê me explicou que Tucansan
sempre contara a história de duas irmãs que moravam em duas casas perto de um
rio. Um belo dia foram visitadas por uma
velha feiticeira que deu um vaso para cada uma. A bruxa alertou que o vaso lhes
daria água suficiente para um dia quando batessem uma vez no vaso. Mas que não
deviam bater mais vezes. Uma das irmãs seguiu o conselho. Mas a outra,
ambiciosa e preguiçosa demais, resolveu bater mais vezes, o que descontrolou o
vaso provocando uma enchente que
destruiu sua casa e a matou. E, quando morava na casa de Domingos e Joana, Tucansan
volta e meia mostrava a Tetê aquele
amuleto que ele sempre usava para protegê-lo de duas coisas terríveis: a doença
e a cobiça instiladas por maus espíritos.
Pois é tão ruim ter muito quanto ter muito pouco, dizia ele. Este amuleto
ficou muitos anos guardado com Tetê e só se perdeu quando a casa da Alexandre
Ferreira foi vendida e muita coisa se perdeu. Junto ao amuleto veio um papel de
arroz oriundo de Hong Kong com a mensagem: An inch of gold
cannot buy an inch of time.






















