segunda-feira, 18 de maio de 2015

Capítulo 2 Joannita Seção 2.4 - Recortes e contos de Tetê



Iracema Raming Vianna Meirelles: alguns detalhes de sua vida e algumas histórias recolhidas  junto aos irmãos  e primas do autor são relatadas

Este é o registro de nascimento de Tetê ( 11ª Circunscrição Livro 53 fl 113 termo 1412 nascimento)



No mapa abaixo pode-se ver como está hoje esta região  onde vivia o jovem casal Domingos e Joanna quando nasceu Tetê.

No mapa abaixo do  início do século XX (Onde está indicado o local aproximado da residência de Domingos José, quando recém casado, à Rua Dr Leal, 28) pode-se comparar as mudanças ocorridas em cem anos e como o bairro era residencial  com transporte sobre trilhos variado para o centro da cidade. O bairro foi  cortado pela Estrada de Ferro Central do Brasil (km 11,398).  São limítrofes os bairros de Inhaúma, Abolição, Água Santa, Cachambi, Encantado, Piedade, Pilares e Todos os Santos.
Formando hoje  a região do Grande Méier sua origem remonta à época colonial, quando suas terras sediavam um engenho de açúcar que lhe deu o nome.
Desenvolveu-se, na segunda metade do século XIX, a partir da implantação da antiga Estrada de Ferro Pedro II (Estrada de Ferro Central do Brasil). Após a Proclamação da República do Brasil, foi erguido um galpão de pintura de carros que daria origem ao atual Museu do Trem.



Iracema tinha uma beleza melíflua típica dos padrões de beleza da época e um ar sonhador pungente, tendo por isso sido aclamada entre outras jovens como uma das formosuras de seu tempo.

O aniversário de Iracema  era sempre lembrado por seu pai, seja com presentes, seja com festinhas, seja com notícias na mídia. O carinho de Domingos José para com Tetê era profundo. Uma das publicações é exibida abaixo.




No recorte acima identificam-se parentes Antonieta Meirelles e Antonio José de Meirelles. Presume-se que Antonio José de Meirelles aqui citado é primo de Domingos José Meirelles e homônimo do avô de ambos.







A documentação mantida por Iracema incluía também Notas fiscais de Hospitais como a do nascimento do autor deste trabalho na Casa de Saúde São José em parto assistido pelo Médico Dr Sertã. Nela pode-se observar como os custos médicos eram diferentes em relação ao início do século XXI.


A casa de Tetê foi ampliada em 1947 a partir de um núcleo menor da família Rohr na Alexandre Ferreira 206 (antigo 82). O estilo normando foi uma exigência de meus pais, pois este era um estilo em vog na época que foi utilizado pelos mesmos engenheiros do Piraquê. À  direita o estado da obra contratada pelo pai  do autor Antonio Ferreira da Silva Quintella em 1947.  A letra é de seu irmão Antonio Domingos Meirelles  Quintella. Ao lado direito vê -se a casa em 1972 com a neta Lulu, Tetê e a nora Mana à frente em foto tirada pelo irmão do autor Alfredo Domingos Meirelles Quintella.


Abaixo a vê-se localização da casa hoje e anúncio do atual ocupante. O terceiro andar foi ampliado segundo projeto de Antonio Ferreira da Silva Quintella. Antigamente o terceiro andar abrigava um escritório com várias mesas e uma biblioteca de mais de dez mil volumes. A frente era apenas um sótão onde havia laboratórios diversos. Hoje a garage e o quintal foram anexados à casa atual e o sótão transformado em extensão da antiga biblioteca.
 




Uma das histórias mais interessantes que Tetê  contou para seus filhos foi o caso de Tucansan



 Tiu- Kwan Shang, ou Tucansan é como era chamado o velho cozinheiro chinês, enigmático, caladão, que fazia malabarismos na cozinha da casa de meu avô ao preparar alguns pratos orientais. Sua maestria era proverbial, não apenas nos pratos óbvios de origem chinesa, mas surpreendentemente ele sabia com perfeição os mistérios das culinárias do Pará, Maranhão, Pernambuco e Rio de Janeiro, além dos de algumas outras culturas asiáticas. Minha mãe me falava muito dele e de sua tristeza profunda, perceptível somente por pessoas observadoras, quando estava em  seus momentos de fragilidade.  Normalmente ele ostentava um sorriso, que agora sabemos,era amarelo, no espírito e na letra. Para  poucas pessoas ele falava de si, ou de seus parentes ou da terra dos ancestrais, que ele conhecia muito pouco.
Sua história é simplesmente curiosa. Seu avô  e seu pai vieram para o Brasil com o avô do avô deste autor, juntamente com uma leva de trabalhadores livres de plantio de chá no Maranhão. Viveu entre 1907 e 1915 na casa de Domingos José  e fez amizade com a suave Iracema, a primogênita da casa, ainda criança.   Sua família havia vindo ao Brasil como agricultores para a experiência de plantio de chá no Maranhão conduzida por Antonio José Meirelles 1º. Após a morte deste  bisavô doa utor deste trabalho, em circunstâncias suspeitas e uma longa disputa judicial pela sua herança, a plantação de chá entrou em declínio e foram despedidos os chineses e indianos. Mas alguns optaram por ficar no Brasil. Pelo que se sabe, os parentes de Tucansan  andaram por Ouro Preto e pelo interior de São Paulo. Posteriormente com os fracassos  destas iniciativas de produção de chá, empregou-se como cozinheiro e após uma experiência de aprendizagem na cozinha de um hotel do centro do Rio de Janeiro, procurou o avô do autor, Domingos José Meirelles, para trabalhar em sua casa.
Em janeiro de 1915, porém, pediu ao patrão que lhe pagasse a viagem de volta à China pois queria rever  seus familiares e ajudá-los no governo do presidente Yuan Shi Kai, homem de uma esposa   e dez concubinas, de  quem eram longinquamente aparentados. Este general depôs o último imperador da China – Pu Yi. Mais tarde intentou auto proclamar-se imperador, todavia ocupou primeiro o posto de presidente entre março de 1912 e 22  de dezembro de 1915 e só imperou  por três meses até março de 1916.
Dizia também que, desde sua separação,  descobriu  que se  sentiu sempre muito só ao longo de sua vida pois, graças à sua timidez, tinha construído  mais muros do que pontes. Agora julgava que era hora de construir pontes com seus parentes distantes que estavam precisando dele.
Domingos José Meirelles comprou sua passagem de navio para China e não se soube dele por muito tempo. Parentes dele enviaram uma carta por volta de 1917 que continha um amuleto de ouro que, dizia a tradição,  garantia a saúde e proteção contra os maus espíritos. Ele havia enviado este presente de aniversário de 12 anos para sua “amiguinha, a honorável Tetê” com todo o “carinho e respeito”. Na carta contavam toda a turbulência que a China estava vivendo, a morte de Yuan Shi Kai e a do próprio Tucansan. Mas diziam que ele morrera  feliz, ajudando seus parentes e acalentando o sonho de uma grande China.
Parece que havia deixado aqui no Brasil  várias viúvas de que se separara e de uma delas teve duas filhas. Deixou na família Meirelles uma suave lembrança de sua sabedoria oriental, particularmente para a superação e proteção contra a ambição desmedida.
Certa  vez tentei esclarecer qual o significado daquele valioso amuleto, proveniente da China, e Tetê me explicou que Tucansan sempre contara a história de duas irmãs que moravam em duas casas perto de um rio. Um belo dia foram  visitadas por uma velha feiticeira que deu um vaso para cada uma. A bruxa alertou que o vaso lhes daria água suficiente para um dia quando batessem uma vez no vaso. Mas que não deviam bater mais vezes. Uma das irmãs seguiu o conselho. Mas a outra, ambiciosa e preguiçosa demais, resolveu bater mais vezes, o que descontrolou o vaso  provocando uma enchente que destruiu sua casa e a matou. E, quando morava na casa de Domingos e Joana, Tucansan volta e meia mostrava  a Tetê aquele amuleto que ele sempre usava para protegê-lo de duas coisas terríveis: a doença e a cobiça instiladas por maus espíritos. Pois é tão ruim ter muito quanto ter muito pouco, dizia ele. Este amuleto ficou muitos anos guardado com Tetê e só se perdeu quando a casa da Alexandre Ferreira foi vendida e muita coisa se perdeu. Junto ao amuleto veio um papel de arroz oriundo de Hong Kong com a mensagem: An inch of gold cannot buy an inch of time.